Virei um lote em Petrópolis. Pedaço de chão. Sempre para alugar. Dizem que é o mercado que está difícil. Eles dizem, você sabe, os lotes vizinhos. Como aquele que começou a ser construído e agora é a lembrança do que poderia ser um prédio, o rascunho de um projeto arquitetônico. Não acredito. Neles ou na economia. Não acreditava quando era gente. Não irei acreditar agora com essa visão de túmulo abaixo e de céu em cima. Tenho certeza de que é culpa desse agente imobiliário que põe o nome na placa que me fura. Ó homem fuleiro. Acredito que mereço placa maior, com dois paus na terra. Um outdoor. Manchete e foto da internet de uma mulher feliz de terno branco, desses de nylon brilhante, com os braços cruzados anunciando a empreitada. Enquanto isso, no retângulo impresso em branco, vermelho e azul, atulhado de letra e número, quem passa vê e despercebe. Não pega o celular para ligar. Não gira a economia. Mantém a grama na terra e o ar sobre mim. Um eterno aguardo urbanístico de receber construção. Vai ver a meta é ser assim pelo sempre, até Petrópolis acabar (o que será logo, espero). Fazer do mato floresta e o que está dentro da fronteira uma área protegida.
sábado, 24 de janeiro de 2026
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
encefalite / PONTUAL
{encefalite}
I.
Dor ao piscar, na ponta da linha d'água.
Enxaqueca que começa pontual e irradia ao tomar remédio, aliviando a intensidade ao deixar de ser localizada. Área ao redor do olho esquerdo e sobrancelha dolorida ao toque.
Região entre nariz e sobrancelha esquerda levemente inchada. Não perceptível senão ao toque.
II.
Uma praia minúscula esquecida por todos daquela praia ao lado. Tinha areia densa, de grãos grossos e espaçados entrelaçados por conchas e pedras de todos os tipos.
Nos propunha um andar massageante. Ou talvez algo como desfilar sobre uma pilha de unhas postiças.
{PONTUAL}
III.
Às vezes sinto, na borda do meu cérebro, uma gota caindo, desatando.
A sensação sempre me assusta e é intocável pela posição. Talvez seja algo a se investigar, embora eu me contente em achar um significado mítico desses eventos, como um degelo da minha mente.
Se posso desabafar, sinto há tempos que meu cérebro está contraindo, impedindo minha mente de dar pontos finais e pensamentos conectar.
Ah, o impedimento! Uma compressa moral e mental que não deixa fugir daqui, fisiologicamente, sincronicamente, para fora de mim através da mente.
IV.
As coisas ordinárias
vamos pensar nas coisas ordinárias
eu & você
você & nós
nós & todos
este país que tem esta cidade onde vive o chão que carrega a sua casa
este chão
carrega nas costas os seus pés
este chão
ordinário de gente ordinária que move este país
este país
que tem gente ordinária que na ordem do dia se faz brilhante
constrói muralhas sobre este chão
constrói sapatos para estes pés
pés que dilaceram essa carne sólida
sólido como este país que se faz em pé neste chão
V.
Foi falado (quem falou?)
que eu penso demais
e niguém (no fim) entende o que penso
então é melhor não pensar
fazer o que dá pra fazer
falar a palavra que se formou no escuro e sem esforço
que você vai ouvir sem pensar também
e tateando a forma clara vai entender sem dúvidas
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
de queda e afogamento
Na fila do caixa o atendente me convidou com um olhar estranho
respondi em educação, porém sem muitos significados.
Estava, pois, de passagem, não era meu local – apenas uma viagem –, e aquele supermercado era por si próprio uma cidade-dormitório, apenas
estadia para qualquer um, de dentro de um shopping center.
Ele seguiu seu olhar caminhando enquanto íamos todos pela garagem em frente
e ninguém mais notou, ou notar não traria conversa
porém eu notei e posso ter notado mal
porque já experienciei olhares assim antes, que se tornaram lábios e me engoliram monstruosamente
em repetidas vivências, sempre na defensiva,
me tornei requerente desses,
sem nenhum prazer e com extremo medo
sabendo ao todo que virá e desencadeará noutros signos
a letra, palavra, oração
e irei me fazer protetivo
o corpo enquanto armadura
fuga sem deslizes
desejando que a força seja maior que a minha
e haja descontrole
não é cruel?
Continuo fazendo perguntas em todas as minhas divagações,
porque em um círculo decadente danço
esperando quem quebre a taça
e me perfure com os estilhaços
arrebentando o Mesmo
para me apresentar caminho de corretude
mas é esperar demais
e perceber muito do momento insignificante com alguém
como Você
sem nome e sem face
quarta-feira, 18 de junho de 2025
Carne de pescoço
O pescoço enrijeceu. É um sinal do fim dos tempos? Está tudo tortuoso desde que me tornei fraco para uma só bebida. Querer ser feliz diante do álcool, depressor do sistema nervoso, exige situação adequada: amigos, amantes, afins. Nada disso existe aqui. É deserto. Há apenas a bebida, corolário, descendo e voltando pelo corpo, tal qual o exercício do trapezista. Enquanto isso, desespera-se pela atenção. Conversa hipotética sobre a conversa hipotética com aquele ou aquela que não receberá seus dados escritos. Saiba, é por não saber desencadear e então decidir, na razão humana, ser cachorro procurando o rabo infinitamente num círculo, num oito, num ponto. Cobra que come cobre e devora em partes o desejo. Sem desafios póstumos, sem recomeço.
domingo, 23 de março de 2025
Óculos
Estou de olho em você. Estou de olho em vocês dois! Pla-To-Ni-Ca-Men-Te. Pois se pudesse, abocanharia. NHAC! E quando o dia cai feito Belzebu sobre a igreja, tapando a crença com a dúvida, me pergunto: Kaspar Hauser, se adulto, seria consumido pelo furor do desejo? Lobos loucos solitários em salas grupais rodeiam olho-rabo o caminho infinito que forma círculo e vira ponto. Acaba-se assim a História?
quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
Carta de Amor II
Você sequer tinha sua barba naquele sonho. Isso se me lembro direito de você. Não sei se me lembro, não te conheci muito bem. O que posso afirmar é a sua posição naquela esfera, o sonho, em que estava feroz contra mim.
Deve ser como eu te imagino - faz sentido! -, embora esperasse que fosse a realidade além do onírico: você bravo e feroz feito um cão radical possuído pela raiva. Devolvi na mesma medida - Não, fui mau.
Defendi meu território e calei suas palavras com imensa racionalidade, fazendo questão de procurar mais provas além das fornecidas, que foram desnecessariamente caçadas por toda aquela cena para o puro estado da humilhação, que só pode ser visto assim agora com a crosta resfriada, vivido naquele instante como a construção sólida de minha defesa.
Ninguém me violará.
Sinto sua falta. Sinto-a porque não te conheci muito bem e gostaria de o ter feito. Não sei o que se desenvolveria disso. Agora só espero que tenhas ira, fome, mágoa; que gires teu rabo em torno disso, corras e apontes as orelhas para a direção tomada como pontas de flecha que cortam o vento.
Encontre-me, pois não sei como te encontrar.
sexta-feira, 8 de novembro de 2024
Medusa e Caravela
Todos os sentimentos podem permear a sala de uma mesma mente. Conjugam-se livremente mesclando e separando para seus unicelulares originais. O corpo sentimental é caravela-portuguesa. Vem de mesmo ser, trabalhando e se direcionando para sustentar funções inócuas que são satisfatórias em suas diligências ainda que fadadas ao mortífero do próprio cerne. Haraquiri ou caos organizado – são estas decisões laborais e torturantes (diga-se: auto-tortura) aquelas extremamente, singularmente organizadas, não necessariamente compreendidas à flor dos olhos além.
“Não é medusa apesar da aparência”. Não é medusa. É cooperativista e não-usual. Balão uno de muitas e muitas partes (Antítese? Oximóron?), com fio e corda e corpo inflado que eletrocuta e morre, desloca e encalha, solta-se e come, que cria e modifica e reproduz.
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