Eu não acho que quero viver a vida num eterno diário. Eu que comento eu e falo por mim, pra mim, designado sobre uma página minha de meu conteúdo. Contudo não sei como desviar desse ciclo. Tenho pensado sobre ser a necessidade de alguém e quanto a isso, quando mando mensagens para meus amigos, aguardando resposta, a validade deles como minha necessidade. Vocês são necessários para minha existência!, e me enche de alegria ter uma resposta. Entretanto, sou eu a necessidade de alguém? Talvez de meu pai, minha mãe, que me procuram para trocar boletos ou perguntar sobre algum grau de segurança para não caírem em golpes. A necessidade utilitarista. E talvez o que almejo – a companhia –, não seja tão diferente disso. É utilitário: para a minha felicidade. É estoico, talvez, sem grandes distinções diante de minha ignorância. Porém peço que seja diferente, neste texto de conjunções adversativas, que valha por desejar a sociedade enquanto me sinto completamente alienado dela. E então, sóbrio, em mim e sob meu solipsismo que pouco a pouco se transforma em monismo, falo de mim, na primeira pessoa, esperando por alguém que se espelhe, sinta-se representado e faça de mim sua necessidade para uma conversa.
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
sábado, 24 de janeiro de 2026
Aquele que deixou de ser construído
Virei um lote em Petrópolis. Pedaço de chão. Sempre para alugar. Dizem que é o mercado que está difícil. Eles dizem, você sabe, os lotes vizinhos. Como aquele que começou a ser construído e agora é a lembrança do que poderia ser um prédio, o rascunho de um projeto arquitetônico. Não acredito. Neles ou na economia. Não acreditava quando era gente. Não irei acreditar agora com essa visão de túmulo abaixo e de céu em cima. Tenho certeza de que é culpa desse agente imobiliário que põe o nome na placa que me fura. Ó homem fuleiro. Acredito que mereço placa maior, com dois paus na terra. Um outdoor. Manchete e foto da internet de uma mulher feliz de terno branco, desses de nylon brilhante, com os braços cruzados anunciando a empreitada. Enquanto isso, no retângulo impresso em branco, vermelho e azul, atulhado de letra e número, quem passa vê e despercebe. Não pega o celular para ligar. Não gira a economia. Mantém a grama na terra e o ar sobre mim. Um eterno aguardo urbanístico de receber construção. Vai ver a meta é ser assim pelo sempre, até Petrópolis acabar (o que será logo, espero). Fazer do mato floresta e o que está dentro da fronteira uma área protegida.
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
encefalite / PONTUAL
{encefalite}
I.
Dor ao piscar, na ponta da linha d'água.
Enxaqueca que começa pontual e irradia ao tomar remédio, aliviando a intensidade ao deixar de ser localizada. Área ao redor do olho esquerdo e sobrancelha dolorida ao toque.
Região entre nariz e sobrancelha esquerda levemente inchada. Não perceptível senão ao toque.
II.
Uma praia minúscula esquecida por todos daquela praia ao lado. Tinha areia densa, de grãos grossos e espaçados entrelaçados por conchas e pedras de todos os tipos.
Nos propunha um andar massageante. Ou talvez algo como desfilar sobre uma pilha de unhas postiças.
{PONTUAL}
III.
Às vezes sinto, na borda do meu cérebro, uma gota caindo, desatando.
A sensação sempre me assusta e é intocável pela posição. Talvez seja algo a se investigar, embora eu me contente em achar um significado mítico desses eventos, como um degelo da minha mente.
Se posso desabafar, sinto há tempos que meu cérebro está contraindo, impedindo minha mente de dar pontos finais e pensamentos conectar.
Ah, o impedimento! Uma compressa moral e mental que não deixa fugir daqui, fisiologicamente, sincronicamente, para fora de mim através da mente.
IV.
As coisas ordinárias
vamos pensar nas coisas ordinárias
eu & você
você & nós
nós & todos
este país que tem esta cidade onde vive o chão que carrega a sua casa
este chão
carrega nas costas os seus pés
este chão
ordinário de gente ordinária que move este país
este país
que tem gente ordinária que na ordem do dia se faz brilhante
constrói muralhas sobre este chão
constrói sapatos para estes pés
pés que dilaceram essa carne sólida
sólido como este país que se faz em pé neste chão
V.
Foi falado (quem falou?)
que eu penso demais
e niguém (no fim) entende o que penso
então é melhor não pensar
fazer o que dá pra fazer
falar a palavra que se formou no escuro e sem esforço
que você vai ouvir sem pensar também
e tateando a forma clara vai entender sem dúvidas
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
de queda e afogamento
Na fila do caixa o atendente me convidou com um olhar estranho
respondi em educação, porém sem muitos significados.
Estava, pois, de passagem, não era meu local – apenas uma viagem –, e aquele supermercado era por si próprio uma cidade-dormitório, uma estadia para qualquer um, de dentro de um shopping center.
Ele seguiu seu olhar caminhando enquanto íamos todos pela garagem em frente
e ninguém mais notou, ou notar não traria conversa
porém eu notei e posso ter notado mal
porque já experienciei olhares assim antes, que se tornaram lábios e me engoliram monstruosamente
em repetidas vivências, sempre na defensiva,
me tornei requerente desses,
sem nenhum prazer e com extremo medo
sabendo ao todo que virá e desencadeará noutros signos
a letra, palavra, oração
e irei me fazer protetivo
o corpo enquanto armadura
fuga sem deslizes
desejando que a força seja maior que a minha
e haja descontrole
não é cruel?
Continuo fazendo perguntas em todas as minhas divagações,
porque em um círculo decadente danço
esperando quem quebre a taça
e me perfure com os estilhaços
arrebentando o Mesmo
para me apresentar caminho de corretude
mas é esperar demais
e perceber muito do momento insignificante com alguém
como Você
sem nome e sem face
quarta-feira, 18 de junho de 2025
Carne de pescoço
O pescoço enrijeceu. É um sinal do fim dos tempos? Está tudo tortuoso desde que me tornei fraco para uma só bebida. Querer ser feliz diante do álcool, depressor do sistema nervoso, exige situação adequada: amigos, amantes, afins. Nada disso existe aqui. É deserto. Há apenas a bebida, corolário, descendo e voltando pelo corpo, tal qual o exercício do trapezista. Enquanto isso, desespera-se pela atenção. Conversa hipotética sobre a conversa hipotética com aquele ou aquela que não receberá seus dados escritos. Saiba, é por não saber desencadear e então decidir, na razão humana, ser cachorro procurando o rabo infinitamente num círculo, num oito, num ponto. Cobra que come cobre e devora em partes o desejo. Sem desafios póstumos, sem recomeço.
domingo, 23 de março de 2025
Óculos
Estou de olho em você. Estou de olho em vocês dois! Pla-To-Ni-Ca-Men-Te. Pois se pudesse, abocanharia. NHAC! E quando o dia cai feito Belzebu sobre a igreja, tapando a crença com a dúvida, me pergunto: Kaspar Hauser, se adulto, seria consumido pelo furor do desejo? Lobos loucos solitários em salas grupais rodeiam olho-rabo o caminho infinito que forma círculo e vira ponto. Acaba-se assim a História?
quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
Carta de Amor II
Você sequer tinha sua barba naquele sonho. Isso se me lembro direito de você. Não sei se me lembro, não te conheci muito bem. O que posso afirmar é a sua posição naquela esfera, o sonho, em que estava feroz contra mim.
Deve ser como eu te imagino - faz sentido! -, embora esperasse que fosse a realidade além do onírico: você bravo e feroz feito um cão radical possuído pela raiva. Devolvi na mesma medida - Não, fui mau.
Defendi meu território e calei suas palavras com imensa racionalidade, fazendo questão de procurar mais provas além das fornecidas, que foram desnecessariamente caçadas por toda aquela cena para o puro estado da humilhação, que só pode ser visto assim agora com a crosta resfriada, vivido naquele instante como a construção sólida de minha defesa.
Ninguém me violará.
Sinto sua falta. Sinto-a porque não te conheci muito bem e gostaria de o ter feito. Não sei o que se desenvolveria disso. Agora só espero que tenhas ira, fome, mágoa; que gires teu rabo em torno disso, corras e apontes as orelhas para a direção tomada como pontas de flecha que cortam o vento.
Encontre-me, pois não sei como te encontrar.
sexta-feira, 8 de novembro de 2024
Medusa e Caravela
Todos os sentimentos podem permear a sala de uma mesma mente. Conjugam-se livremente mesclando e separando para seus unicelulares originais. O corpo sentimental é caravela-portuguesa. Vem de mesmo ser, trabalhando e se direcionando para sustentar funções inócuas que são satisfatórias em suas diligências ainda que fadadas ao mortífero do próprio cerne. Haraquiri ou caos organizado – são estas decisões laborais e torturantes (diga-se: auto-tortura) aquelas extremamente, singularmente organizadas, não necessariamente compreendidas à flor dos olhos além.
“Não é medusa apesar da aparência”. Não é medusa. É cooperativista e não-usual. Balão uno de muitas e muitas partes (Antítese? Oximóron?), com fio e corda e corpo inflado que eletrocuta e morre, desloca e encalha, solta-se e come, que cria e modifica e reproduz.
sábado, 3 de agosto de 2024
Conversa Dental
“Isso, isso… É claro que me importo com todos os acontecimentos que a mim são direcionados. Todos nós nos preocupamos, certo? Quem sabe? Não sou eu quem dirá por você. O que posso afirmar é que me importei com tudo e agora passo alheio como se não me importasse com nada. Aquele dia. Aquele acontecimento daquele dia. O que passou, o que vivi. Foi. Sabe o que realmente me incomoda? Perceba, venha analisar: não aquelas palavras das quais ele me chamou, situou e enfiou. É tudo categórico. O que me incomoda é que estavam no diminutivo. Quando criança, não é um problema te tratarem como criança e sim te tratarem como uma criancinha. Uma subcriança. Ali ele já me diminuiu. Restringiu a posse social. Era uma projeto de gente. Dessa forma de gente, tornou-se ainda mais restrita. Mínima. Jogou a dignidade para baixo, terra adentro. A semente, vamos configurar, sequer gerou a muda. Eu me tornei semente diante daquelas palavras. A criancinha que sequer é criança, categoria menor da vida humana, e ali, já adulto, uma categoria abaixo de onde eu poderia estar. Bananas para todo lado, pisando e escorregando. Uma alegoria circense, assim vista. Efeminado, triste, altamente cauteloso. Foi como fui descrito e guardei a raiva para desabar com vocês. Agora, dias depois, mantenho toda a mágoa no peito, porém não discutirei com ele. É profissional, não é mesmo? Assim se estabelece nossa conexão. Ele colocará suas luvas, enfiará as mãos em minha boca e me amordaçará de algum jeito. Literalmente ou não. Sairei do consultório com um dente a menos e muitas, muitas moedas de real gastas. Economia colapsante. É pela saúde, daí respeito. A saúde sequer tem diminutivo. “Saudinha?”, não existe. Portanto não dá para brincar. Com as pessoas brincamos. Brinca-se até destruir – e portanto não devo me abalar. O abalo é o flagelo do corpo e não se deve cair nesta armadilha.”
quinta-feira, 1 de agosto de 2024
Desalento
Nossas últimas memórias foram tapas. Tapas bem-dados e merecidos que não causaram dor. Temo pelo cachorro, não o quero diante de minhas sujeiras, mas por vocês não temo. Faço-o pela obtusa tentativa de independência, em que sobre meu corpo desfaço-o. É um método feliz e não convencional, porque espero me definir e alinhar ao mundo, juntando sentenças em união à terra. Ninguém sairá perdendo.
Com o tempo se perceberá que foi pueril, porém nato e necessário caso dado certo. Não devo pensar no futuro e suas possibilidades infundadas, embora seja de praxe especular o terror do estar vegetativo, inabitável e sempre em dor, incapaz sequer de atender aos requisitos de meus criadores. Esta não é a hora de se pensar nisso, tome a atitude como navegação. Descansar os músculos, a mente, os ossos e a alma.
domingo, 14 de julho de 2024
Faqueiro
A carne recém-cortada é molhada.
Não é isso o que você quer?
Sem luvas, saiba como amaciar as estrias, dosar a gordura e manter com sugestão o que se possa sorver com gosto. Para nosso paladar, que seja este um banquete.
Não quero apenas que me dose com o toque. Quero desde o início te ver cortar minha célula.
A lâmina é afiada? Irá perfurar, penetrar? Um corte bem dado não possui dor imediata. O salmão não percebe a morte.
Estrangule-me com seus métodos treinados.
Sem luvas, saiba como amaciar as estrias, dosar a gordura e manter com sugestão o que se possa sorver com gosto. Um golpe sem marcas que seja uma lembrança sem tortura, que foi pedido, emitido e concordado como o envio de uma carta.
Não quero apenas que me dose com o toque.
A carne recém-cortada é molhada e um corte bem dado não possui dor imediata. Não é isso o que eu quero? Para nosso paladar, que seja este um banquete.
quarta-feira, 26 de junho de 2024
Moldagem
1. Eu já nem sei te dizer... Todos esses desprazeres interrompidos são engessados e eventualmente esquecidos. Na chuva forte o gesso se desfaz, a pedra perdura. Aprendi e portanto não me preocupo.
2. Ontem do carro vi a escultura no centro da cidade. Ela sempre esteve lá, desde que me assentei por aqui. É pedra, obstáculo permanente. A essa altura da vida devo saber trabalhar com gesso. Não sei trabalhar com pedra.
3. Se comparo essas estruturas a esses meus desprazeres interrompidos, são eles gesso? São eles pedra? Irão desaparecer na chuva? Permanecer por mais uma década? Necessitam do entorno, o dentro da sala?
4. Não parece ser terapêutico não saber descrevê-los, de onde vêm ou o que são. Por uma década procuro a chuva forte sobre o gesso. Confundo os materiais que me estruturam esses sentimentos. Como expressá-los, liquefazê-los?
5. Quando interrompidos são articulados pelas mãos, amassando os fragmentos em novos desprazeres. Se essa fragilidade fosse o todo, talvez não me preocupasse. Não aprendi o que são, por que são e por que continuam a ser. Na chuva forte ou na sua ausência. Na minha estadia ou longe de mim.
Massa corrida
Não tendo boas proporções, o cabelo era grosso e leve, quase uma antítese, que não se manifestava numa forma estável e apenas flutuava em longos cachos sem dinâmica, como se o artista daquela criatura o tivesse feito em carvão às vezes borrado com o dedo, massas escuras com espaços de fios brancos contrastantes e nenhuma delicadeza. Nenhuma, um caos celebratório para aquela face bonita e decadente. Essa decadência era iminente e parecia estar apressada, a cada dia se manifestando de alguma nova forma na qual o cabelo sem definição não ajudava a declarar juventude ou disciplina. Não era rebelde, não parecia pelo menos ser, contudo também não era ajustado. Era a coisa do meio, aquele quem espera silencioso pela hora do parabéns para comer um único pedaço de bolo e partir, mandar suas lembranças e ir.
segunda-feira, 10 de junho de 2024
Revelações I
1. Às vezes você retira a seringa rapidamente, distraidamente e sem maldade no ato, que se revela num esguicho de sangue comicamente longo como uma mangueira de bocal semicerrado. O esguicho declina, espreguiça-se e volta a fechar os olhos – parte de seu feito engenhoso de coágulo te esperando o toque à procura de relevo. "Ainda está sangrando?", você se pergunta. Inchado somente. Talvez fique roxo, verde, cáqui. O leque de cores que não está na moda, porém na parede se acomoda junto à mobília de tons frios. O luxo da sobriedade e sua derivação de modéstia. Modéstia no quê, no vidro ancorado na pedra; no estofo de veludo e linho contra a madeira? Talvez seja isso. Na pele não orna. Não na minha pele. O relevo não tem o formato de um sofá, sequer pelo acolchoado feito veludo. No brilho dos olhos (vago o pensamento: meus olhos têm perdido o brilho) não há o reflexo de um vidro polido. Há de se faltar colírios lacrimais suficientes para isto, para a borracha esbranquiçada e molhada dos meus olhos brilharem. Tem-se uma bolinha de pega-pega no máximo. Diferentes tecidos e analogias que não têm se acomodado com a mobília certa, ou têm se perdido no meio das outras mobílias – você e mais você. Uma casa mal planejada em que nada se conecta e o gesso do teto foi passado rápido demais, ficou texturizado. Cheio de relevos, porque esguichou o sangue ao retirar a seringa. Não foi por maldade, foi por ocasião. Essas coisas acontecem, deixam suas marcas e esperam por cicatrização.
2. Se eu tateio no escuro à procura de direção, encontro com força o vidro que emoldura a sua obra. Isso te machuca? Sinto ter te ferido ultimamente, mesmo sem contato direto. Alguns corpos, criou-se a ilusão, são capazes de ignificar de forma autônoma. Entrar em combustão. Fósforo em transe contra a textura arenosa.
[O texto não foi continuado. Por que seria? O palito de fósforo contém enxofre em sua ponta, fósforo arenoso em sua lixa ao qual o atrito combusta. Entra em flama. Flâmula. Flor de fogo em seu espetáculo próprio. Morre em seguida, logo o texto igualmente morre. Este comentário é como a introdução de um filme de animação japonesa repassado para o público ocidental. Precisa-se explicar o contexto. Dar início ao meio e esperar pelo fim. Este é o fim, o desenho infinito do ponto final, maior que o texto em si. Que graça. Não soube, enfim, o motivo de te machucar. Entremos em combustão.].
3. Foi esfaqueado monstruosamente. Não era latrocínio ou crime fútil, porque não havia motivo. Fala-se do instinto do lobo ou do homem em sua alcateia, porém não se discute a realidade do nada que só a mente humana pode tecer: alguma coisa que se é nada. Motivação, instrução, definição. A barbárie, no entanto, não será lida assim, mesmo que desta forma seja.
Procura-se a relação da barbárie, as notas e pistas como cartas enganchadas que quando embaralhadas e postas em ordem revelam as qualidades básicas de um jogo: supor, propor, dispor e discorrer regras, o ordinário se tornando funcional. Quer-se isso do crime. Quer-se o crime num assassinato. Tornam-se necessários adjetivos e adjuntos às ações, sujeitos, verbos e objetos. Conduzir a ilustração ou narrar uma figura, um retrato. Do morto, do assassino e, entre eles, da causa.
4. Ó meu Deus, meu rosto agora está flácido. Estou dúbio em idade, esquivando minhas obrigações ou me obrigando a lidar com esses métodos. Meios e formas. Circunferências humanas, nada mais do que eu. Já a derme, a epiderme, ..., o crânio, os miolos, ..., as células abrangidas por essas todas vidas, estes minúsculos grãos, enturvados e inflados em seus pequenos, médios e grandes portes até a parte oleosa que protege a minha face, flácida face, com distinta angular moldura.
[À espera de boca,] Por um beijo e [Boca] que por mim me engula. Irei de encontro como um carro de motorista irado. Irado e certificado, com o alcance bem pronunciado e mapas lidos. Que sabe a direção. Você. Para bater e autodestruir. Camicase.
5. Essas doenças todas ancoradas ao corpo – certamente neste ponto seria a mais branda e rescisória a matá-lo. Pobre corpo, pouco cultural. Sem forma ou adoração, apenas um contexto de gritarias, irradiando a ira contida na má tradução de sua existência.
Ele atraía tais enfermidades tal qual tais enfermidades condicionavam suas dores. Trato bem feito e de regras justas, ainda que não completamente entendidas por todos os seus jogadores. Eram iniciantes aqueles de sua sociedade, contudo o mártir era único.
Sobrevivera a muitas dessas e esperava sobreviver a mais tantas, perdendo a amplitude de seu caráter no entremeio. A amplidão do ser, a lucidez. Estava menos e menos são, expirado feito ovos velhos, liquefeito dentro de uma casca à espera do trincamento. Deveria trincá-lo, mais e mais? Deveria chacoalhar o corpo? Adicionar tártaro? Química magnífica já o abandonara, apesar. Numa guerra de grandes bolas de chumbo estriadas em canhões, era a bala da Beretta no capacete o instrumento da morte.
6. Sou a Santa que chora Sangue.
Sem nomes e diante do sentido, construo verdadeira, plena, infinita adoração do corpo ao mundo. Não há descrição senão a percepção, e se nos faz nus, fá-lo tomando as barreiras sentimentais.
Sentido, não sentimento. Sentidos, sentidos. Sente-te o mundo. Tornas-te o mundo.
sábado, 1 de junho de 2024
Voz
1. Voz.
Faça a ginástica.
Não é indigno de se pensar ao perdê-la, a importância de exercitá-la, contê-la, extraí-la. Essa voz amarga que cresce, gravita, pesa...
Quando é feita a ginástica, o canto torto do músculo enrijecido, se destaca que foi criança negligenciada, crescida e firmada no mundo com independência. Sempre é. Mais do que alienar o corpo, se aliena a voz - a voz que carrega a mente, que é face da ideia, é articulação do horror. Sempre minuciosa em sua expressão, minúscula em sua presença. O maior grito ainda é mínimo para o mundo, porém o som ressoa além da estratosfera. No ar que se respira tem voz, tem grito, tem sussurro. Tem a fragrância de uma frequência na música destilada, diluída e transparente. Físico-química. Um ponto que se junta a outro. Sintético ou Orgânico.
Voz.
Permita ser vocalizada.
2. Com aquele olho foi pensado no tingir do mundo. A Íris e a Esclera e a Pupila. Carregam mil cores que influenciam a maneira em que o de fora é visto.
Entra e é moído feito carne triturada, feito a cenoura que se mastiga. Assim se faz a informação, o que você condena e o que adora.
quinta-feira, 30 de maio de 2024
Lamento
Aos 30 anos o corpo tinha peso inexplicável ao dos 20. Os braços suspendiam queimadas sem deixar rastros. Percebi que a cada ano éramos mais bonecos articulados do que gente, pois cada junta tinha seu nome, sua função e sua disposição a aparentar. Você logo era possuidora, observadora – de si e de cada parte contida em si. Cada fresta e cada nexo do corpo. Cada alelo e cada célula. Cada dor a seu favor.
Mas não se era conhecedora da própria vítima. Se não era antes, enquanto gente, seria agora enquanto invólucro articulado? Em vez de se resfriar na sabedoria e conectar os pinos, novos pinos se formavam. Mais profundos, acertando nervos e veias. Cáusticos sem acomodação.
Foram inúmeras pílulas de nortriptilina e comprimidos de amitriptilina. Muito além do que comportava meu peso. Ainda assim demorou alguma certeza de tempo para irradiar tremores, vômitos e convulsões.
Você era e eventualmente deixava de ser, como recentemente, de maneira efervescente e bela, no exame de endoscopia em que fui sedada pelas narinas. Estava ligada e deixei de estar, feito um televisor em stand-by.
Agora entretanto não tinha o acordar.
Essas palavras todas são códigos. Despedi-me. Flutuava massa cinza pelo ar, diante dos prédios e abaixo das nuvens. Sem rumo e sem função. Sem mérito. Nenhum valor. Sem tristeza ou vitória, você não é mais um critério social.
Descompensei-me do mundo e não há referência abaixo, sequer acima. O código que lhe fito como uma flecha irá expirar. Sem ver o Sol, Vênus ou a estação espacial. Sem assombrar a lápide no cemitério ou sequer reconhecer aquele que usa os trapos dados aos brechós. Sem vigência de língua, tempo, matemática. São todos didáticos, e o didático agora não lhe cabe. Atravessa sua massa cinza sem valor. Existente e incompreensível.
Lamentações
1. - Você é colagem.
Isso me ofende? Faço colagens. Devo entendê-las e não nego se parte delas for. Ser colagem. Colagem, veja, é um objeto próprio no fim. Exige pensamento... Toda arte exige pensamento, certo? Bem, talvez sequer exija. Não pensando se habilita uma colagem que nada fala, e do espectador é feita a condução. É nisso que me aplico? A colagem ao todo... Talvez, a margem final. Coisas todas. Frases, desenhos, fotos. Cortes de cabelo que agora estão em mim. Não se faça de tonto. Você é tão colagem quanto eu. Quem derroga, derrogado é. Todos derrotados por suas sentenças.
Se me ofendi, me desculpe. Com sinceridade, devo ser sempre aflito. Estar na margem da guerra. Você às vezes ganha pela persistência, pelas unhas mal cortadas que com golpes sem direção se tornam fios delgados de sangue na pele do oponente.
- Você também é colagem. Isso te incomoda?
2. Não quero terminar o pensamento assim. Todo para todos. Isto é arte e aquilo é arte. Esta é pra mim e aquela não. Vamos desmerecer alguma coisa. Algum objeto... Porém, que simplista e caótico! O que surgiu do humano deve ser desmerecido? Não. Deve ser arquivado. Que simplista caótico! Arquiva e chama de arte. Põe em alguma literatura artística. Isto é arte e aquilo é arte, para mim e para você. Não e não e não. Desmereça calado, coma a tela e engasgue a tinta. Simplista caótico! Simplista e caótico.
3. Desenvolve-se uma habilidade para sentir a dor. Prazer na dor. Horror à dor. Algo além do efeito desmoralizante da dor, como um acontecimento físico ou espiritual que encapsula um instante do tempo, uma viga lateral de história. Não. Faça-se mais que isso. Dor como procissão. Para se fazer homem, sentir-se mulher; deixar de ser humano em vez de compreender a existência do momento. Abdicar-se enquanto se inclui em sociedade. Múltiplos padrões.
quarta-feira, 29 de maio de 2024
Massa sanguinária
1. Fortunato aquele que pensa além de si.
2. Talvez não tenha muita substância. É apenas mingau.
Não, não gosto de mingau. Não gosto da textura paposa, mas talvez uma canjica... Tão insignificante quanto. Decidi ser ela. Como o mingau (por que me afasto do mingau e o vejo feminino?), nutre profundamente, mesmo que a substância peça acompanhamento... Não, isso é pela modéstia: o acompanhamento nos faz sociais. Sou canjica e procuro mingau. Yang, Yin. Procuro em minhas mãos ter prazer na textura paposa do mingau. E flerto com isso de maneira grandiosa, pois sou feliz em ser canjica. Sou feliz quando me cobrem de salsinha e cebolinha, quando me recheiam de costelinhas e sei – espero saber! – que o mingau é feliz coberto de canela, que o mingau é feliz recheado de canjiquinha.
Não me importo de, na minha brasa, no alicerce, não ter muita substância. Me fascinam aqueles que têm. Sociedade livre e bela em que canjicas e mingaus convivem com pratos elaborados e que todos são devorados pelo tempo, por cada coisinha que paira no ar. Pela fera e pela micose, que é nutrida e se espalha em desenhos lindos, sensações próprias, venenos e cheiros ousados.
Fico feliz de me encontrar canjica, coisa que sei, profundamente, que me faz feliz jantar.
3. Uma vez você invadiu meu sonho. Fiquei grato, tive um momento contigo. No sonho, o Banco Itaú abrira sorveterias nas grandes cidades, como pequenas bancas 24 horas, abertas para aqueles com seus cartões. Até mesmo para abrir o freezer bastava deslizar seu cartão. Não lembro os sabores que pegamos. Você pegava, pesava e passava o cartão mais uma vez, com um bocado de câmeras reconhecendo seu rosto para amedrontar. Foi divertido me reaproximar de você (naquela perspectiva imaginária), naquela hora da noite de Belo Horizonte em que mais ratos do que gente vivenciavam as ruas.
4. A primeira coisa feita foi comer minha cabeça. Neste ponto eu já estava morto e solto do mundo. Eram dentes muito fortes e, diferentemente do meu controle sobre mim, aquele ser mastigava sem cautela.
Na primeira mordida a ossada se destrinchou e a carne afundou num barranco mole. Mastigava sem cuidado pois eu não podia impor controle, então sucumbi à morte rápida e tortuosa, incrivelmente suculenta. Os olhos pulsaram e saíram de suas órbitas, os dentes trincaram e tudo se uniu em texturas sonoras e táteis. Fui comido. Morto comido. Logo após a cabeça o restante do corpo ainda mole e morno.
Suculenta carne crua. Quanto tempo dura? Quanto pano incomoda tais dentes fortes? Afinal, se sequer ossos e dentes incomodaram a mastigação daquele ser, qual seria o problema de rasgar roupas finas e engoli-las? Talvez fossem as muitas camadas, com calça, colete, camisa e regata. Foram essas a engasgar e matá-lo. Morte tola. A minha, mastigado. Servindo apenas para de longe observar e declamar aos anjos. Ver-me excruciado numa massa de sangue com aquele ao lado engasgado roxo sem ar ao chão.
Besta vida besta.
5. Queríamos acreditar que não teria nenhum bicho naquele monte de grão. Nada parecia se mexer e nos ausentamos de descobrir a data de validade do produto. Encontramos a sacola aberta, recortada. Estava muito bem vedada, porém. Quem o fez a vedou enrolando, dobrando e dando nós sobre nós, para não entrar ar. No entanto já tinha ar dentro do pacote. É essa a resolução planetária: se abriu tem ar.
6. – My greyed elbows. Burnt, they're ashed. My body seems dried nowadays and I don't even know why. I keep moisturizing it, giving them my efforts and yet my elbows, my lips... Not my knees though. – I breathe and cackle – It's like they're telling me something. Those outer points, the weapons of the body. Dried. Defenseless.
7. Alec,
Quando te vi daquela última vez, você estava rodeado por carneiros naquela pedra flutuante entre montanhas.
Do outro canto do espaço observei amedrontado.
Como poderia ter medo de seguir, com minhas duas pernas, alguém com tanto acalanto?
Não saberia explicar. Meus pontos de vista são consumidos pela memória, como folhas de papel queimadas na brasa.
Você estava cercado por carneiros. Pulavam e dançavam num círculo espaçoso, cujos espaços me permitiam admirar sua presença.
No entanto hesitei em chamá-lo.
Que criatura especial você é – e no contraste, naquela época e naquele espaço, de quem observava de longe, percebi que não estava completo. Não havia eu como um todo.
Desculpe retornar este pensamento em mim. Será breve, com prontidão...
Talvez tenha te amado, desconexo, como o metrônomo que se recusa a pontuar as batidas.
Quem sabe talvez você entenda essa tentativa de poema, de carta. Essa tentativa de desculpas. Essa busca por barulhos, sons esdrúxulos que assustam e afagam meu coração.
Te respeito, meu caro. Imensamente.
No futuro, quem sabe, seguirei até a pedra flutuante com carneiros. Dançarei ao seu redor. Cena linda, magnífica, que muito me apetece em seus deslizes e derretimentos.
Com carinho,
Sonhos cruzados
sexta-feira, 12 de abril de 2024
Ultrassom
1. O meu ventre. No meu ventre. O meu ventre...
Assumo que com meus olhos só posso encarar o fora.
- Toda vista é representação do que o fora me fornece.
- E a ultrassonografia, Senhor?
...
O meu ventre. Sim, o meu ventre. No meu ventre, que o Doutor lambuza com gel, se cria imagem.
- A imagem é o fora, sim, de algo de dentro. Que o fora me oferece nesta tela azul.
2. Com o cano mergulhado na garganta. Ó sensação ruim! Ruim e prazerosa. Prazeres devassos que o Doutor magrelo me ofereceu por uma sedação malfeita. Senti na garganta o cano recortar a carne mole. Que surpresa! Não me lembro – e portanto não posso comunicar com exatidão – se o sangue que não passou pela língua tinha gosto.
- Há gosto na hemorragia?
- Não sei te dizer, Senhor.
Enfim, enfim... No fim do cano se arrastava uma câmera. Um ultrassom? Um veículo! Talvez este quem me cortou os tubos humanos. Figura agora gente por trás de minhas palavras. Para chegar no esôfago. Era um Ecodopplercardiograma Transesofágico. Ver imagens do meu coração, de dentro para dentro para fora.
Bem, eles viram. Não pude exatamente me mexer e naqueles instantes fingia que a sedação servia a meu favor.
- Você pôde ver meu coração, Caro?
- Não exatamente... Círculos e pontos, números como coordenadas. Tudo pulsante. E mais... - ... - os cabelos louros da Assistente ficavam na minha frente.
No fim sequer soube se me trouxeram imagens... Ou se as entendi naquela hora.
3. - Vai ver nós sejamos burros.
- É mesmo?
O ventre burro. Burro, burro, parte de um ser equivalente. Mas talvez... com suas poucas preocupações se comunica com o ser Burro que o carrega. Meu ventre. Eu, burro.
Assumo que o que ouço e sinto é o que não posso ver. Experiência nova, sólida, coisa demais para além da visão. O dentro. O dentro da barriga.
4. Na maca do consultório sinto o gel frio sendo espalhado pela barriga. Olho pra cima. Meu Assistente olha pra mim e a Assistente do Doutor olha para a tela. Imagino que se houvesse maior nudez este encontro seria mais íntimo. É necessário intimidade em consulta médica ou isso é contra a moral acadêmica?
É outro dia e a lembrança do ultrassom de dentro para fora zapeia o cérebro como quando se erra a costura e acerta o dedo despercebidamente. Não é o caso daqui, porém lembranças sempre perturbam o homem. É a idealização delas. É o trabalho das lembranças.
- Trabalho interessante. - foi solto no mundo e imediatamente mal entendido.
- Vejo muita gente todo dia. Uns melhores e uns piores.
Vê-se. Vê-se, penso, o que o fora oferece. Uns melhores e uns piores.
A barriga não vê, assumo. Ventre, quero dizer. Vamos dar títulos melhores. É o que posso oferecer como moeda de troca a essa parte de Bicho que carrego. Que me carrega. Mais de um terço do corpo.
O ventre sente. Infinitamente superior. Sentir carrega além do tempo, e o que me carrega carrega o sentimento.
A consulta não durou muito. Era rotina para meu problema. Um peso extra ao cotidiano: peso que durava tempo e tempo que me fazia olhar para o gesso do teto enquanto sentia o frio se estendendo pelo meu morro com umbigo. Pensei nisso desta forma pois quando a Assistente do Doutor me limpou com folhas finas e ásperas de papel, um globo gelatinoso se ocupou do meu espaço. "Uma piscininha, Senhor!" comentaria meu Assistente. Total assombração me tomou agressivo à procura por uma dessas folhas finas e ásperas, como quem quer tomar todas as ações de uma empresa.
Espero que não tenha sido essa a impressão da pobre coitada - Não, não me importaria por tal. Vê-se ali muita gente todo dia. Uns melhores e uns piores.
5. O meu ventre. No meu ventre. O meu ventre... Este ventre que não via se comunicava por outros métodos. Grunhia, tremia, vibrava. Sentido e sinestesia.
A visão, do fora, ainda muito me era importante naquele instante. Era procurado entender cada coisa que no ventre cabia - seus grunhidos e sensações - à procura de me entender. Minhas dores e meus tremores, o que via e o que engolia.
Era muito bárbaro tomar por assim a vida. Em seus limites. Ainda mais bárbaro, do próprio lutador, estremecer esses limites até que se fundissem.
O de dentro dado ao fora junto ao que de fora era entregue a mim. Equilíbrio, quem sabe, ao perder estes na tela azul do ultrassom.
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